José Carlos Ary dos Santos foi um dos grandes vultos das letras e da música portuguesa. Militante comunista, homossexual assumido, poeta e letrista engajado, numa altura em que qualquer uma destas coisas era suficiente para ir preso – e foi, em 1969.

Orgulhamo-nos, por isso, de ter sido um dos autores destacados por Joana Guerra Tadeu, a primeira curadora da nossa Mesa de Cabeceira, materializada na estante do Primeiro Andar da Casa Capitão, onde até hoje se encontra o livro “As Palavras das Cantigas”, publicado postumamente em 1989.

Porque a atualidade das suas palavras continua a ecoar no presente, desafiámos artistas de diferentes géneros e (novas) gerações a reimaginar “As Cantigas das Palavras” – aludindo ao título de 1989. A 20 de fevereiro, Dia Mundial da Justiça Social, vamos assistir ao culminar deste exercício de evocação, num concerto único, na Casa Capitão.

A cantora Ana Bacalhau, outrora dos retintamente portugueses e populares Deolinda, entretanto lançada a solo, vai estar acompanhada pela pianista e compositora luso-angolana Gisela Mabel, mais ligada ao jazz e à música contemporânea e neoclássica.  Um encontro inédito.

Os cantores e compositores de indie-folk Jasmim e Bia Maria são dois outros nomes que vão partilhar o palco. Vai escutar-se ainda o fado hereticamente eletrónico de Fado Bicha; a portugalidade modernista de Miss Universo; ou o trovador açoriano de Romeu Bairos.

Todes vão emprestar as suas vozes e instrumentos a poemas que fazem parte da nossa memória coletiva e figuram nas páginas daquele livro de 1989, pensado ainda em vida pelo próprio Ary, mas só editado depois da sua morte pelas Edições Avante!.

O repertório ainda não está fechado, mas não vão faltar cantigas como “Lisboa, Menina e Moça” ou “Os Putos”, popularizadas por Carlos do Carmo; “Meu Limão de Amargura”, de Amália Rodrigues; ou, indissociáveis de Fernando Tordo, “Tourada” e “Canto Francisco”.

Mas o programa de 20 de fevereiro não se esgota aqui. O espetáculo será precedido, pelas 18h, pela conversa Cantigas de Ontem para Fazer Justiça Hoje — Ler Ary dos Santos, moderada por Joana Guerra Tadeu, com o jornalista Pedro Tadeu, a editora Rosa Azevedo, da Snob, e a atriz Sara Carinhas.

A partir de fragmentos da obra de Ary dos Santos, esta sessão propõe ativar a palavra de Ary não numa lógica de evocação, mas como dispositivo crítico para pensar a atualidade: as desigualdades de hoje, os novos sujeitos políticos, quem tem voz no espaço público e as transformações sociais em curso.

Em diálogo com a coincidência simbólica do Dia Mundial da Justiça Social, a palavra poética é aqui convocada como ferramenta de pensamento e espaço de debate público. Como Ary sempre fez.

A Mesa de Cabeceira é um ciclo de curadoria e programação que convida leitores que o Quiosque da Casa Capitão admira a partilharem os seus livros de mesa de cabeceira: livros que já estiveram, livros que permanecem, livros que regressam. A partir dessas escolhas, desenvolvemos propostas de programação que provocam novas criações e estabelecem diálogos com outras linguagens e expressões: de conversas a oficinas, de performances a debates, de exposições a concertos.